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Pharma InnovationCiência & Tecnologia MedicamentosMaconha medicinal impulsiona indústria bilionária

Maconha medicinal impulsiona indústria bilionária

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O THC tem uso medicinal legítimo. Ele é usado (…) na fase terminal de câncer, como analgésico, no lugar da morfina”, diz Salomão Rodrigues Filho, do Conselho Federal de Medicina.

Planta popularmente identificada com aspectos negativos, como o de matar neurônios e de ser porta de entrada para drogas mais pesadas, a maconha vem sendo vista de outro ângulo. No Brasil, ela passou recentemente a ser entendida e consumida como remédio por uma parcela da população. Essa virada de reputação não acontece apenas aqui: é um fenômeno global. Em 2014, o reconhecimento de suas propriedades medicinais ganhou novo fôlego no país, graças à popularização do canabidiol, um de seus compostos, e deu origem a uma indústria pujante.

Atualmente, cerca de 30 países já têm leis para garantir o acesso a produtos feitos de cânabis para tratar dezenas de doenças. Estima-se que, em 2023, o mercado de medicamentos feitos com a droga valerá US$ 40 bilhões. Segundo estudo das consultorias New Frontier e Green Hub, o Brasil tem cerca de 3,4 milhões de pacientes que poderiam ser beneficiados por essas terapias, que movimentariam cerca de US$ 1,4 bilhão por ano. Mas, com apenas 3.182 pessoas usando remédios à base da planta legalmente em dezembro de 2018, o país ainda engatinha no desenvolvimento desse mercado.

O que se chama de maconha são as flores das plantas fêmeas da espécie Cannabis sativa, ou cânabis. Seu uso medicinal foi registrado pela primeira vez em farmacopeias chinesas cerca de 2.000 anos atrás, que a indicavam para gota e reumatismo, por exemplo. Hoje, sabe-se que as propriedades medicinais da erva estão associadas aos canabinoides, principal ingrediente de uma resina fabricada por suas inflorescências. Já existem cerca de cem tipos desses compostos identificados. O THC é o principal deles – e, também, o responsável pelas alterações de percepção e comportamento buscadas por quem faz uso recreativo da droga. Outro composto importante desse tipo é o canabidiol, que, diferentemente do THC, não produz o “barato”.

Uma vez no organismo, esses canabinoides interagem com um sistema de comunicação entre neurônios, batizado de sistema endocanabinoide. “O que os cientistas descobriram é que os seres humanos e muitos animais produzem moléculas semelhantes às da planta para regular coisas tão importantes como humor, sono e apetite”, diz o neurocientista da Universidade de Brasília Renato Malcher.

O interesse pelo assunto começou a ganhar corpo em 1995, quando a Califórnia aprovou, num plebiscito, o uso da cânabis para cuidados paliativos em pacientes terminais de câncer e HIV. Ficou mais popular em 2013, quando o canal CNN veiculou nos EUA um programa sobre o tema. O foco do programa era Charlotte Figi, menina de 6 anos que estava à beira da morte devido a uma síndrome rara que causava cerca de 300 crises epilépticas por semana, sem responder a medicamentos convencionais. Depois de alguns meses tratando-se com um óleo de maconha rico em canabidiol, a menina parou de ter convulsões, deixou o hospital e voltou a andar e a frequentar a escola.

Como o THC, o canabidiol – ou CBD – tem uma série de efeitos terapêuticos. Com perfil mais sóbrio e seguro, não dá “barato” nem causa dependência. Foi um salvo-conduto para que a opinião pública e a mídia reconhecessem o valor medicinal da cânabis.

A empresária brasileira Keila dos Santos viveu essa mudança de reputação da maconha de perto. Radicada na Califórnia, ela era sócia e gerente de um dispensário – estabelecimentos autorizados a vender cânabis para uso medicinal nos EUA. A lei federal americana e convenções internacionais não reconhecem as propriedades medicinais da planta e de tempos em tempos a polícia antidrogas do país fechava dispensários e processava proprietários.

Em 2013, os Estados de Kentucky e do Colorado regulamentaram a produção de cânhamo industrial – variedades de cânhamo com menos de 0,3% de THC e qualquer quantidade de canabidiol. Keila fechou o dispensário na Califórnia e obteve licença no Colorado para cultivar, beneficiar e vender cânhamos para produção do remédio, cujo comércio é autorizado como suplemento alimentar nos EUA.

A indústria do cânhamo é uma das que mais crescem nos EUA. Com 1,8 mil hectares de área cultivada, o Colorado é líder na produção de uma das mais badaladas commodities agrícolas do país. O faturamento com a produção de extrato bruto de canabidiol derivado de cânhamo foi de US$ 290 milhões em 2017, segundo a publicação “Hemp Industry Daily”, e deve chegar a US$ 1,65 bilhão em 2021 – crescimento de 500% em quatro anos. No total, dez Estados já cultivam cânhamo e outros sete preparam legislações sobre o tema. O interesse na commodity é tão grande que em dezembro o Congresso americano aprovou uma medida para legalizar o cultivo da variedade de cânabis em nível federal, pondo fim a uma proibição de 81 anos.

A Revivid, empresa de Keila, colhe uma safra de 113 hectares de cânhamo por ano. Em 2018, foram 650 mil pés de cânhamo para extração de canabidiol. Ela emprega 52 pessoas, a maioria na fábrica de extração, e fornece canabidiol para cerca de 200 empresas, em 12 países. No Brasil, ela é uma das principais fornecedoras de óleo de cânabis rico em canabidiol, atendendo a cerca de 500 pacientes. “Mas é uma operação que só se justifica por uma questão pessoal, porque exportar para o país no varejo, individualmente, não compensa economicamente.”

A onda da cânabis medicinal chegou ao Brasil em 2014, com a repercussão do caso de Anny Fischer, de 6 anos. A menina de Brasília é portadora de CDKL5, doença rara que causa um quadro de epilepsia grave e refratária – não responde a medicamentos disponíveis. Os pais tentaram alternativas antes de experimentar um óleo rico em canabidiol. Em três meses de tratamento com o produto, a criança que tinha 80 convulsões por semana viu as crises sumirem. O caso, que teve ampla repercussão, estimulou uma súbita demanda pelo produto. O canabidiol, no entanto, não estava disponível no país.

No Brasil

Sob pressão de pacientes, a Anvisa começou a conceder autorizações de importação em caráter excepcional, e o Conselho Federal de Medicina publicou resolução autorizando a prescrição do produto por neurologistas e psiquiatras. No início de 2015, a agência criou regulamentação específica para a importação de produtos à base de cânabis. Ela oficializava o regime de exceção e aumentava o prazo de validade da autorização. Mas, até hoje, importar é a única forma de conseguir o produto legalmente no país. O processo precisa ser individual, mediante um pré-cadastro, e autorizado pelo presidente da vigilância sanitária.

A agência chegou a montar um grupo de trabalho para estudar a regulamentação do cultivo da planta no Brasil para fins científicos e medicinais. O então presidente da Anvisa Jarbas Barbosa disse à época que a possibilidade de produzir cânabis para esses fins está prevista na Lei Nº 11.343 (Lei de Drogas) e que a regulação da matéria cabe à agência. A regulamentação permitiria que empresas cultivassem cânabis para pesquisa e para produção de medicamentos.

“A maior dificuldade dos pacientes ainda é o alto custo do tratamento importado. Baixar o preço do tratamento facilitaria o acesso a um número maior de pacientes”, diz Margarete Brito, presidente da Associação de Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal (Apepi). Muitas famílias entram na Justiça para que o Estado ou planos de saúde paguem a conta. Outra saída é recorrer ao mercado de produtos artesanais – caseiros e ilegais. Outro problema, diz ela, é conseguir a prescrição médica, obrigatória.

“O acesso é difícil mesmo para quem tem dinheiro”, diz Leandro Ramires, médico e diretor da Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis Medicinal (Ama+me). Ele conta que o tratamento mensal com os produtos importados não sai por menos de R$ 1 mil. “Tenho mais de 60 pacientes para quem prescrevi canabidiol de um fabricante que parou de entregar, porque não está mais interessado no mercado brasileiro. Então eu tenho que fazer uma nova receita, indicando outro produto. E o paciente, refazer o pedido à Anvisa.”

“Fazendo aqui produtos como os importados podemos comercializar por um preço muito mais baixo. Sairia por menos de R$ 40 o tratamento mensal. E ainda podemos exportar”, diz o empresário Mário Greco, presidente do Grupo Life e ex-presidente brasileiro da Eli Lylly e da Monsanto. Em 2017, quando a Anvisa prometeu regulamentar a matéria, ele anunciou investimentos de R$ 20 milhões para construir uma fábrica de cânabis medicinal no país. “O Brasil tem potencial enorme para sair na frente desse mercado, e estamos deixando países como Uruguai e Paraguai nos passarem. É uma tremenda oportunidade que estamos perdendo.”

Questionada pelo Valor, a Anvisa disse, por nota, que “acompanha as discussões no âmbito legislativo, como o Projeto de Lei do Senado 514/2017”, e que “possui proposta de iniciativa regulatória em trâmites internos”, repetindo informação de 2017. O projeto de lei trata exclusivamente do cultivo medicinal para uso pessoal – matéria que, segundo Barbosa, está fora das atribuições regulatórias da agência. Fontes consultadas pela reportagem afirmam que ela já tem iniciativa regulatória pronta para ser votada pela diretoria colegiada. Bastaria pautar o assunto.

“Independentemente de eventual mudança legislativa, cabe à Anvisa observar a norma vigente, que já prevê, desde 2006, a regulamentação do plantio, do processamento e da exploração para fins medicinais e científicos”, diz o advogado e ex-secretário nacional de Justiça Beto Vasconcelos, integrante da Comissão de Juristas para revisão da Lei sobre Drogas, criada pela Câmara dos Deputados no ano passado. “A possibilidade de regular o cultivo no país, prevista em lei, tornou-se dever legal a partir do momento em que as pesquisas científicas demonstraram os benefícios à saúde que a cânabis pode trazer e, sobretudo, a partir do momento em que a Anvisa reconheceu, por meio das autorizações de importação, a relevância desses produtos para a saúde pública.”

Ao não regulamentar o plantio para esses fins, o poder público estaria em dívida com a obrigação constitucional de garantir acesso à saúde, afirma Vasconcelos. “Mas tenho a confiança de que essa iniciativa se transformará em breve numa consulta pública, porque a regulamentação representaria, hoje, garantia de tratamento e acesso à saúde para inúmeras pessoas, desenvolvimento científico e tecnológico de nossas universidades e indústrias, além de maior competitividade e benefício para os consumidores e toda sociedade.”

Para o Conselho Federal de Medicina, existem outras razões para a regulamentação ainda não ter saído. “O que se está querendo em todo o mundo é liberar o uso do THC recreativamente. Essa é a busca de muitos grupos, inclusive empresariais, que querem comercializar isso como álcool e tabaco”, diz o psiquiatra Salomão Rodrigues Filho, conselheiro e coordenador de saúde suplementar do CFM. “Nós queremos o uso medicinal. Mas o uso recreativo tem que ser decidido pela sociedade brasileira.” Ele também atribui o lento desenvolvimento da cânabis medicinal no país ao “baixo interesse econômico do canabidiol” e à falta de pesquisas sobre os efeitos da cânabis a longo prazo. “A cânabis produz dezenas de canabinoides, e só dois deles têm efeitos parcialmente conhecidos”, diz.

“O THC tem uso medicinal legítimo. Ele é usado em vários Estados americanos na fase terminal de câncer, como analgésico, no lugar da morfina. Dá um estado especial de consciência e tranquiliza, e isso realmente é uma indicação boa”, afirma Rodrigues Filho. Ele ressalva que os produtos não podem ser feitos em casa, “porque senão voltamos aos primórdios da medicina”, e que o THC inspira cuidados especiais. Além de causar dependência, seu uso crônico pode trazer consequências no desenvolvimento cognitivo, no caso de adolescentes, e porque suspeita-se que a substância possa induzir a doenças psicóticas, como a esquizofrenia, em pessoas pré-dispostas. Daí a importância de se regulamentar a matéria, para evitar o uso abusivo e contraindicações.

“Se a Anvisa estabelecer claramente as regras da industrialização, temos condições de garantir que os pacientes façam uso adequado do THC. É perfeitamente possível, temos esse controle com a morfina”, diz Rodrigues Filho. “A Anvisa faz a regulamentação e o CFM estabelece os protocolos e critérios de prescrição, com base em estudos científicos, como fazemos hoje para anfetaminas, psicóticos e ansiolíticos, substâncias controladas que estão no mercado e são usadas adequadamente.”

Tabus

Na falta de regulamentação, as empresas que investem no mercado apostam em duas frentes para ampliar o acesso dos pacientes brasileiros ao tratamento no futuro: educação médica e ensaios clínicos. A comunicação com prescritores é necessária porque a maioria dos médicos desconhece as aplicações da cânabis. Falta informação sobre aspectos clínicos – dosagem, efeitos colaterais, contraindicações e interações medicamentosas – e práticos – características dos produtos disponíveis ou como obtê-los via importação.

O tabu em torno da substância vem caindo. Segundo a pesquisa mais completa já realizada sobre o tema, 57% dos entrevistados são a favor da legalização da maconha para uso medicinal e apenas 9% a favor no caso do uso recreativo. Realizada em junho e julho de 2014 pelo DataSenado, a pesquisa consultou 1.106 pessoas. O apoio chega a 75% entre os que declararam não seguir nenhuma religião, e cai para 44% entre os evangélicos. Em janeiro do ano passado, o Datafolha fez uma enquete com 2.765 pessoas, mas que não investigou o apoio ao uso medicinal; 32% delas acham que o uso deveria ser descriminalizado – em 2012, eram 20%.

Brasil tem 3,4 milhões de usuários em potencial da cânabis medicinal, que movimentaria US$ 1,4 bilhão por ano, segundo estudo

“O preconceito está diminuindo muito tanto entre a classe médica quanto entre os pacientes, mas ainda falta informação. Hoje, temos 15 colaboradores internos e mais 17 representantes nacionais. Em 2019 vamos crescer porque vamos contratar novos representantes”, diz Leandro Beltrão, sócio da FarmaUSA, importadora de medicamentos. “Nos últimos seis meses, o canabidiol trouxe 60% do nosso faturamento. E essa fatia vai aumentar.” Apesar de o total de pacientes ser relativamente pequeno, a taxa de crescimento projetada é alta: a empresa estima fechar o ano com um crescimento de 300%.

Um bom exemplo de como a informação sobre uso medicinal da cânabis para a classe médica é crítica no cenário atual é o posicionamento da GreenCare, uma das últimas empresas a entrar no mercado nacional, que se apresenta como empresa de educação médica. “O que nos propomos a fazer é conversar com a classe médica e disseminar o conhecimento que temos sobre como a cânabis ajuda ou pode ajudar em diferentes patologias”, diz Martim Mattos, CEO da empresa, que deixou a área de finanças da Hypera Pharma para empreender na área.

Outros concorrentes também investem na educação médica para aumentar as vendas. A HempMeds, por exemplo, realiza eventos presenciais e on-line para médicos e abriu escritório em São Paulo para realizar eventos. Já a empresária Camila Teixeira, representante de fabricantes de canabidiol (CW e Elixinol), abriu a empresa Indeov “para conectar médicos e pacientes à cânabis medicinal”.

Enquanto isso, os investimentos em ensaios clínicos visam resultados a médio e longo prazo. Esse tipo de estudo, que analisa a segurança e a eficácia de novos fármacos, é requisito para o registro de qualquer medicamento para venda em farmácias. O primeiro medicamento à base de cânabis que cumpre essas exigências é o Sativex, desenvolvido pela britânica GW Pharmaceuticals para controlar dores e espasmos musculares de pacientes com esclerose múltipla. Trata-se de um spray oral de THC e canabidiol, comercializado por aqui sob o nome de Mevatyl. O custo mensal do tratamento é de cerca de R$ 5 mil.

No Brasil, a indústria farmacêutica já está trabalhando no desenvolvimento de produtos à base de cânabis. O laboratório paranaense Prati Donaduzzi, por meio de uma parceria com a USP de Ribeirão Preto, está no início do desenvolvimento de um CBD sintético e começou, em dezembro, a última fase de testes de um medicamento com canabidiol puro, extraído da planta. “Imagino que até o final de 2019 esteja em comercialização”, diz Eder Fernando Mafissoni, CEO da empresa.

Para fazer o estudo, a Prati importou matéria-prima da Europa. O plano é continuar importando na fase de produção, e fazer aqui apenas a formulação e o envase, além dos testes obrigatórios de qualidade, estabilidade e climatização. O investimento de cerca de R$ 30 milhões vem de linhas de crédito da Fundação de Incentivo à Pesquisa e do BNDES. O produto, batizado de Myalo, no entanto, não deve resolver a questão do preço. O tratamento mensal deve custar cerca de R$ 2,5 mil por mês. É mais do dobro do que os pacientes gastam, hoje, com produtos importados no varejo. “O que a gente encontra no mundo agora e tem no Brasil não é medicamento. É um alimento nos outros países, feito sob outra perspectiva de controle de qualidade que não a farmacêutica”, diz Mafissoni. “Sabemos que o preço é seletivo. Quem vai pagar essa conta toda? Vai entrar na lista do SUS? Se não for pago pelo governo, fica difícil.”

Outros laboratórios grandes têm planos de desenvolvimento de produtos à base de cânabis, como Aché, Biolab e Hypera Pharma. “Nosso núcleo de inovação tem 20 a 30 profissionais muito empenhados em estudar a possibilidade de estudos de cânabis”, diz o diretor médico da Aché, Eduardo Motti. O maior entrave da empresa é encontrar matéria-prima. Motti conta que vem conversando com várias empresas, mas tem dificuldades. “Hoje qualquer coisa é importada, sujeita a todas as dificuldades. Então regulamentar o cultivo para pesquisa seria um primeiro passo para desenvolver o medicamento”, diz.

Motti chama a atenção para o leque de possibilidades da cânabis. “A planta em si claramente tem propriedades medicinais. Disso não há a menor dúvida. Mas a epilepsia, que aparece muito na mídia, é uma indicação muito restrita. As aplicações mais promissoras são a dor crônica, náusea e vômitos e esclerose múltipla. E para várias indicações, como no caso dessas, a eficácia pode estar associada a produtos compostos”, diz Motti.

Estudos mostram que o canabidiol é mais indicado para epilepsia e doenças neurodegenerativas como Parkinson e Alzheimer, enquanto o THC revela maior sucesso para tratar dores crônicas e náuseas causadas pela quimioterapia. Mas as pesquisas também indicam que a associação dos dois, como acontece na planta e na maioria dos extratos importados, pode aumentar a eficácia e reduzir efeitos colaterais em relação a produtos purificados.

Um estudo publicado na revista “Frontiers in Neurology” comparou 11 pesquisas sobre o controle de crises convulsivas por extratos de canabidiol purificado ou com pequenas concentrações de THC. Nos dois tipos de produto, cerca de 39% dos pacientes tiveram reduções de mais de 50% das crises. Houve uma melhora geral em 70% dos pacientes que usaram produtos compostos, contra 30% no caso dos purificados.

Seja qual for a abordagem dos novos produtos registrados pelo modelo atual, eles tendem a ser mais caros e vão demorar para chegar às prateleiras. “Considerando o prazo médio de desenvolvimento de um medicamento, isso não seria possível em menos de cinco anos”, diz o psicofarmacologista Fabrício Pamplona, um dos autores do artigo. Assim fica mais claro o porquê de a demanda de pacientes e empresas pela regulamentação da produção, no Brasil, de produtos semelhantes aos importados. Embora haja um consenso de que medicamentos aprovados por todas as etapas de ensaios clínicos sejam o ideal, também está claro que desenvolver produtos para todas as enfermidades levaria décadas e bilhões de investimento em pesquisa. O que fazer enquanto esse ciclo se completa, para não deixar de atender a milhões de pacientes que poderiam se beneficiar dessa alternativa terapêutica?

Mercado

Diversos países têm respondido a essa demanda com regulamentações específicas para a cânabis, que permitem a empresas produzir, beneficiar e comercializar. Essas regulamentações definem quais empresas e que produtos poderão ser produzidos, como serão os controles para evitar desvios para o mercado clandestino, o que deve constar nas embalagens e quais controles de qualidade os produtos precisam atender. Como os produtos não passam por ensaios clínicos, não podem ser registrados como medicamentos nem alegar eficácia; já a segurança dos produtos é assegurada pelo uso tradicional da planta. Nesses países, as autoridades consideram os benefícios maiores do que os riscos e do que os prejuízos para a saúde pública.

Além de garantir amplo acesso dos pacientes a diversas variedades de cânabis, em diferentes formas de apresentação, essas regulamentações aquecem a economia do país com novas oportunidades de negócios e contribuem para o desenvolvimento científico e tecnológico. No Canadá, que tem uma regulamentação do tipo há 17 anos, mais de 20 empresas distribuem cânabis medicinal para cerca de 300 mil pacientes, pouco menos de 1% da população. Diversas empresas do ramo são de capital aberto, com ações negociadas na bolsa de Toronto. O mercado medicinal movimentou R$ 3,5 bilhões em 2018 e deve valer o dobro em quatro anos.

Já a Alemanha regulou a matéria recentemente: desde março de 2017, o país autoriza a importação de produtos de cânabis sob prescrição. Em um ano, o número de pacientes que têm acesso à cânabis chegou a 12 mil – total quatro vezes maior que o Brasil, com mais que o dobro de habitantes. Agora, o país prepara a regulação para cultivo, que a princípio outorgaria licenças para produção de 6,6 toneladas de cânabis para uso medicinal nos próximos quatro anos, e aumentou o limite para 10,4 toneladas.

O Brasil é a maior economia da América Latina, mas o cenário de incerteza tem feito investidores seguirem para outros países. A Canopy Growth, maior empresa de cânabis do Canadá, anunciou em julho a criação de uma subsidiária na Colômbia. O país, que aprovou lei para regular o uso medicinal da planta em 2015, vai ser a base de toda a operação de cultivo, processamento e vendas da canadense para a região, cujo mercado deve valer de US$ 8,5 a 13 bilhões em dez anos, segundo estimativas de mercado. Um mês depois, a empresa ainda elegeu o Chile, que legalizou o uso medicinal em 2015, como seu centro regional de pesquisa e desenvolvimento.

“No Brasil, aguardamos com expectativa a publicação de uma regulamentação que apoie o acesso de pacientes a esses produtos”, diz a Canopy. “Apoiamos o desenvolvimento de uma indústria responsável e regulada, para oferecer produtos de cânabis medicinal confiáveis, com segurança e eficácia.” Em setembro e outubro, foi a vez de Aurora e Tilray, duas outras gigantes canadenses, definirem Uruguai e Chile, respectivamente, como bases de operação e produção regional. A Aurora ainda fez em outubro investimentos para fornecer cânabis medicinal no México, que regulou a matéria no ano passado.

Até empresas brasileiras estão investindo fora do país. A Entourage Phytolab, empresa nacional que desenvolveu um extrato de cânabis em parceria com a Unicamp para realizar ensaios clínicos e registrar um medicamento no país, está investindo no Uruguai para produzir e exportar ao Brasil. “Havia uma promessa de regulamentação para 2017, que não saiu. Em 2018 não saiu de novo, e decidimos que não podemos mais esperar”, diz o CEO Caio Santos Abreu. Além de Chile, Colômbia e Uruguai, Argentina, México, Paraguai, Peru e Porto Rico já regularam a matéria na América Latina.

“Quando falamos de business, timing é muito importante. Não podemos ficar sentados enquanto os outros países avançam”, diz Caroline Heinz, da HempMeds. Ela conta que tentou atrair investimentos para a subsidiária brasileira da empresa com os investidores da matriz e não conseguiu. “Eles consideram o cenário muito instável.”

Do Colorado, Keila dos Santos acompanha as movimentações no Brasil, mas também investe em outros mercados. Inclusive no americano, onde seu principal produto é uma marca de canabidiol para atletas – o uso de canabidiol para dores é popular entre lutadores, jogadores de futebol americano e outras modalidades esportivas. Além disso, o canabidiol é vendido em locais acessíveis, de lanchonetes a postos de gasolina. “Estou me mudando para a Flórida para abrir a Revivid Hemp Store. Vai ser uma butique de CBD, com linha de cosméticos, alimentos, até smoothies. Tudo com canabidiol”, diz a empresária. A Revivid fornece canabidiol para cerca de 200 outras empresas que comercializam produtos com a substância. “Estou abrindo uma linha de chás, também. Uma pena que o Brasil esteja tão atrasado nessa área.”

Fonte: Valor Econômico

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